{"id":2791,"date":"2020-03-20T17:32:00","date_gmt":"2020-03-20T20:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pinzon17.com.br\/cbc\/site\/?p=2791"},"modified":"2025-05-06T15:38:47","modified_gmt":"2025-05-06T18:38:47","slug":"repito-o-menos-carbono-tem-quer-virar-o-novo-ouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pinzon17.com.br\/cbc\/site\/repito-o-menos-carbono-tem-quer-virar-o-novo-ouro\/","title":{"rendered":"Repito: o menos-carbono tem quer virar o novo ouro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A possibilidade de\u00a0\u00a0manter as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas num limite aqu\u00e9m do catastr\u00f3fico, no tempo de vida das gera\u00e7\u00f5es de nossos filhos e netos,\u00a0\u00a0deteriora-se a olhos vistos. <a href=\"https:\/\/pinzon17.com.br\/cbc\/site\/cbc-nas-cops\/cop25-madri-espanha\/\" data-type=\"page\" data-id=\"1876\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A Confer\u00eancia de Madrid<\/a> apenas confirmou a tend\u00eancia.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve aquele ef\u00eamero momento otimista da Confer\u00eancia de Paris que agora retrocedeu. O relat\u00f3rio do IPCC sobre \u00e0s perspectivas para 1.5 graus revela que manter a temperatura no planeta abaixo dos 2 graus, at\u00e9 o final do s\u00e9culo, \u00a0n\u00e3o resolveria quest\u00f5es cruciais como o derretimento das geleiras, uma forte eleva\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0do n\u00edvel dos oceanos, atingindo centenas de milh\u00f5es de moradores de \u00e1reas litor\u00e2neas, \u00a0e diversas outras consequ\u00eancias graves.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os Compromissos Nacionalmente Determinados (NDC), \u00a0anunciados antes do Acordo de Paris, se todos religiosamente cumpridos, todos, \u00a0\u00a0apontam para uma trajet\u00f3ria de \u00a03,2 graus. Em 2030, \u00a0estar\u00edamos ainda emitindo um\u00a0 \u00a0de 12 a 15 bilh\u00f5es de toneladas (Gt)\u00a0\u00a0de gases-estufa a mais na atmosfera para termos uma trajet\u00f3ria mais\u00a0pr\u00f3xima dos 2 graus.\u00a0E a atual\u00a0\u00a0disposi\u00e7\u00e3o de certos pa\u00edses fundamentais no jogo \u00a0para\u00a0cumprirem \u00a0suas respectivas NDCs parece, no m\u00ednimo,\u00a0incerta.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na trajet\u00f3ria inercial em que nos encontramos, hoje, vamos embalados, para mais de 4,5 graus ao final do s\u00e9culo. \u00a0Se olharmos as consequ\u00eancias recentes de uma aumento de &#8220;apenas&#8221; 1,1 grau, j\u00e1\u00a0acontecido, desde o in\u00edcio da era industrial, o quadro diante de nossos olhos fica deveras assustador: \u00a0todos esses furac\u00f5es, ondas de calor, inc\u00eandios, estiagens, enchentes, danos \u00e0 infraestrutura e \u00e0 agricultura cada vez mais frequentes e mais intensos, ano a ano. J\u00e1 podemos entrever, realisticamente, \u00a0 sem exagero algum, o\u00a0 futuro n\u00e3o muito distante do planeta. Infernal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A literatura mais recente \u00e9 francamente aterradora. Estou lendo &#8211;mas n\u00e3o \u00e0 noite, para preservar o sono&#8211; &nbsp;&nbsp;The Uninhabitable Earth, de David Wallace-Wells. Punk. &nbsp;Meu amigo Yves Cochet, ex-ministro do meio ambiente da Fran\u00e7a, acaba de lan\u00e7ar um livro ainda mais apocal\u00edptico&nbsp;&#8220;Devant l\u2019effondrement&nbsp;: Essai de collapsologie&#8221;.<br>Esse&nbsp;ainda n\u00e3o li.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se n\u00e3o bastassem as not\u00edcias ruins da ci\u00eancia, assistimos ao retrocesso pol\u00edtico internacional&nbsp; simultaneamente&nbsp; \u00e0&nbsp;retomada do aumento anual das emiss\u00e3o globais, no agregado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um momento, parecera que elas haviam atingido seu \u201cpico\u201d, em 2013, j\u00e1 que de 2014 a 2016 houve uma ligeira queda, isso em anos em que o PIB&nbsp;mundial &nbsp;crescia na casa dos 3%. Houve, ent\u00e3o,&nbsp; &nbsp;aquele momento de otimismo. &nbsp;Considerou-se um poss\u00edvel o \u201cdiv\u00f3rcio\u201d entre o PIB mundial &nbsp;e emiss\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2017, no entanto,&nbsp;&nbsp;o maior uso de t\u00e9rmicas a carv\u00e3o na China, por causa da estiagem, disparou alarmes. Em 2018 e, tamb\u00e9m, em 2019 houve uma&nbsp;retomada n\u00edtida do crescimento global do CO2 emitido pelo carv\u00e3o, &nbsp;petr\u00f3leo e desmatamento, esse, principalmente,&nbsp; no Brasil e na Indon\u00e9sia e com&nbsp; os mega-inc\u00eandios na Russia (Sib\u00e9ria) e na Austr\u00e1lia. Al\u00e9m disso detecta-se um aumento da emiss\u00e3o de metano provavelmente do vazamento na extra\u00e7\u00e3o, transporte e refino do &nbsp;g\u00e1s de folhelho (shale gas)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar disso \u00e9 prov\u00e1vel que as emiss\u00f5es diretas tendam a se estabilizar nos pr\u00f3ximos anos embora permane\u00e7a a inc\u00f3gnita sinistra dos chamados&nbsp;feedbacks&nbsp;&#8211;a libera\u00e7\u00e3o de metano pelo pr\u00f3prio derretimento das geleiras e da&nbsp;tundra&nbsp;siberiana&nbsp;e a redu\u00e7\u00e3o da capacidade de absor\u00e7\u00e3o de&nbsp;carbono por florestas&nbsp;tropicais e pelos oceanos. A escala&nbsp; precisa desses&nbsp;feedbacks&nbsp;&nbsp;&nbsp;ainda constituam inc\u00f3gnita cient\u00edfica. Por a\u00ed poder\u00e1&nbsp;vir o apocalipse, segundo as obras que mencionei e outras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>O \u201cpico\u201d das emiss\u00f5es globais, diretas,&nbsp;de gases estufa e o in\u00edcio de sua redu\u00e7\u00e3o, em n\u00fameros absolutos, ainda est\u00e1 por vir. Poder\u00e1, de fato,&nbsp; acontecer nos pr\u00f3ximos 15 anos, antes de 2030. Cada ano em que isso n\u00e3o aconte\u00e7a, mantendo-se o atual crescimento de perto de 1%, mais dif\u00edcil ficar\u00e1 para compensar, mais adiante,&nbsp; com redu\u00e7\u00f5es mais dr\u00e1sticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas para termos 1.5 graus,&nbsp;afinal do s\u00e9culo, &nbsp;&nbsp;ter\u00edamos que reduzir as emiss\u00f5es em 45% at\u00e9 aquele 2030. Na situa\u00e7\u00e3o mundial atual isso \u00e9 praticamente imposs\u00edvel de acontecer. No contexto atual,&nbsp; 2 grau tamb\u00e9m aparece como uma meta sobremaneira dif\u00edcil ainda que&nbsp;teoricamente fact\u00edvel em determinadas condi\u00e7\u00f5es que no momento n\u00e3o se d\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O negacionismo clim\u00e1tico de Donald Trump&nbsp;&nbsp;produz retrocessos em domin\u00f3 &#8211;embora a curiosamente a queima do carv\u00e3o continue a cair no seu governo por raz\u00f5es puramente de mercado que ele n\u00e3o consegue reverter embora tente subsidi\u00e1-lo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica n\u00e3o sabe como enfrentar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, nem global nem nacionalmente, nos menos de dez pa\u00edses que realmente contam em termos de emiss\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Solu\u00e7\u00e3o alguma vir\u00e1 dessas reuni\u00f5es anuais da UNFCCC , as Conferencias das Partes (COP) porque seu avan\u00e7o, incremental, \u00e9 sempre&nbsp; travado pelo denominador comum mais atrasado. Antes os vil\u00f5es eram a&nbsp;Ar\u00e1bia Saudita e a Venezuela. Agora lideram os empata-fodas os EUA, a Austr\u00e1lia, o Brasil e&nbsp;ali, meio na encolha, o Jap\u00e3o.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/pinzon17.com.br\/cbc\/site\/cbc-nas-cops\/cop26-glasgow-escocia\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/pinzon17.com.br\/cbc\/site\/cbc-nas-cops\/cop26-glasgow-escocia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Na COP de Glasgow<\/a>, em 2020, nem com muito u\u00edsque os pa\u00edses que realimente t\u00eam peso: China, EUA, \u00cdndia, Russia, Indon\u00e9sia, Brasil, Jap\u00e3o \u2013com exce\u00e7\u00e3o da Europa menos Pol\u00f4nia &#8212;&nbsp; v\u00e3o&nbsp; apresentar NDCs mais ambiciosas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c9 sempre a economia, est\u00fapidos!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o vir\u00e1 do sistema ONU nem do voluntarismo de governos por mais que esse seja desej\u00e1vel. Ainda que tivessem uma vontade&nbsp;pol\u00edtica que n\u00e3o t\u00eam.&nbsp;&nbsp;A quest\u00e3o chave \u00e9 pura e simplesmente econ\u00f4mica!&nbsp;The fucking economy, stupid!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vejam: a tecnologia para um mundo carbono neutro j\u00e1 existe!&nbsp;Em meados dos s\u00e9culo,&nbsp;&nbsp;o transporte a combust\u00edvel f\u00f3ssil ser\u00e1 coisa do passado. O maravilhoso&nbsp;petr\u00f3leo do Pr\u00e9 Sal, daqui a menos de 20 anos, &nbsp;vai ter que&nbsp;competir , desesperadamente,&nbsp; por um mercado sempre minguante,&nbsp; com&nbsp; pa\u00edses com custos menores de extra\u00e7\u00e3o&nbsp;onde o petr\u00f3leo praticamente aflora no deserto. Mais de 60% do petr\u00f3leo&nbsp;atualmente &nbsp;em condi\u00e7\u00f5es de ser explorado vai virar&nbsp;stranded assets (recursos &#8220;extraviados&#8221; ou interditos).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ind\u00fastria do petr\u00f3leo j\u00e1 sabe disso mas o poder do&nbsp;engano e do&nbsp;autoengano \u00e9 imenso. E a ind\u00fastria automotriz pensa manter mercados f\u00f3sseis, residuais. O Brasil parece candidatar-se ser um deles, pelo menos nos planos da Anfavea&#8230; Os&nbsp;stranded assets&nbsp; \u00e9 um problema econ\u00f4mico e social futuro muito s\u00e9rio. Ter\u00e1 que haver uma defini\u00e7\u00e3o sobre o valor econ\u00f4mico a ser atribu\u00eddo ao petr\u00f3leo n\u00e3o extra\u00eddo para evitar emiss\u00f5es. Um problema de precifica\u00e7\u00e3o positiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para absorver carbono numa escala compat\u00edvel com 1.5 grau a humanidade tamb\u00e9m ter\u00e1 de&nbsp;&nbsp;reflorestar uma superf\u00edcie do tamanho do territ\u00f3rio dos EUA. O Brasil, com pelo menos 60 milh\u00f5es de km2 de pasto degradado,&nbsp;&nbsp;tem algo a dizer a respeito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De onde vir\u00e3o dos tr\u00eas a cinco trilh\u00f5es de d\u00f3lares, por ano, &nbsp;para financiar a descarboniza\u00e7\u00e3o, inclusive para compensar os \u201cperdedores\u201d vinculados \u00e0 economia f\u00f3ssil, cujo poder, como vimos na Fran\u00e7a, em 2018, com&nbsp;&nbsp;&nbsp;os \u201ccoletes amarelos\u201d, ou, mais recentemente, no Equador e no Ir\u00e3, h\u00e1 que ser levado em considera\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de financiar a transi\u00e7\u00e3o propriamente dita \u2013solar, e\u00f3lica, ve\u00edculos el\u00e9tricos, mega reflorestamentos, novas tecnologias industriais e de constru\u00e7\u00e3o&#8211;&nbsp;&nbsp;ser\u00e1 preciso compensar uma legi\u00e3o de perdedores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>E temos ainda a conta da adapta\u00e7\u00e3o. Complicad\u00edssima de calcular.&nbsp;O&nbsp;n\u00famero que tenho ouvido s\u00e3o seis tri por ano&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhum governo tem esses recursos. \u00c9 simplesmente rid\u00edculo, uma tentativa revoltante de fazer de idiotas as pessoas, apostar nos tais 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares que os pa\u00edses desenvolvidos supostamente disponibilizariam, a partir do ano que vem, todo anos. A verdade \u00e9 a seguinte: em dinheiro vivo mesmo tem uns 10 bi, apalavrados uns 60 bi, ao todo,\u00a0 e s\u00f3 idiotas ou desonestos podem continuar afirmando que a partir de 2020 os pa\u00edses ricos v\u00e3o proceder a uma transfer\u00eancia norte-sul de liquidez dessa ordem, metade para mitiga\u00e7\u00e3o, metade para adapta\u00e7\u00e3o (ali\u00e1s tipos de demandas totalmente diferentes e administrados de formas completamente distintas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os governos dos pa\u00edses desenvolvidos simplesmente n\u00e3o t\u00eam esses recursos e sua opini\u00e3o p\u00fablica, invariavelmente trabalhada por fortes grupos xen\u00f3fobos e anti-imigra\u00e7\u00e3o, \u00a0limita sobremaneira sua margem de manobra. Os EUA de Trump j\u00e1 sairiam da jogada, a UE e o Jap\u00e3o,\u00a0 junto com as ag\u00eancias multilaterais, n\u00e3o t\u00eam a menor possibilidade de assumir esse compromisso \u00a0conforme originalmente \u00a0imaginado embora possam eventualmente\u00a0 faz\u00ea-lo na forma de garantias para um Fundo Garantidor capaz de alavancar recursos do setor financeiro privado. A tal\u00a0blended finance.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses tr\u00eas a cinco trilh\u00f5es anuais &#8211;os previamente anunciados cem bilh\u00f5es al\u00e9m de tudo eram \u00e9 ridiculamente escassos,&nbsp;&nbsp;peanuts&#8211;&nbsp; &nbsp;para mitiga\u00e7\u00e3o podem ser encontrados num sistema financeiro privado global que movimenta uns 220 tri.&nbsp; Essa dinheirama pouco converge para a economia produtiva &#8220;real&#8221;. H\u00e1 muitos trilh\u00f5es de fundos de pens\u00f5es, fundos soberanos e bancos de investimento, aplicados atualmente a juros muito baixos &#8211;at\u00e9 negativos &#8212;&nbsp;que poderiam ser mobiliados&nbsp; para financiar a descarboniza\u00e7\u00e3o desde que existissem garantias oferecidas por um grupo de governos ricos e bancos centrais confi\u00e1veis. Mas isso \u00e9 uma&nbsp; parte apenas. O essencial est\u00e1 numa revolu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema de valores da economia, ou seja no reconhecimento&nbsp; um novo padr\u00e3o ouro: o do menos-carbono.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para fazer frente \u00e0&nbsp;cat\u00e1strofe clim\u00e1tica anunciada \u00e9 necess\u00e1ria uma revolu\u00e7\u00e3o. Isso mesmo, uma re-vo-lu-\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que n\u00e3o dessas de&nbsp;fuzilar gente, com her\u00f3is,&nbsp; m\u00e1rtires e&nbsp; brutais ditadores mas uma revolu\u00e7\u00e3o cultural-financeira, mexendo no paradigma de valor econ\u00f4mico. A emerg\u00eancia de um novo valor, convers\u00edvel, &nbsp;em bens,&nbsp;servi\u00e7os e tecnologia descarbonizante. Por que n\u00e3o&nbsp;uma nova moeda, o menos-carbono? O novo ouro!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O novo ouro???<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2015, o Brasil conseguiu introduzir no pre\u00e2mbulo do Acordo de Paris o Par\u00e1grafo 108,\u00a0por for\u00e7a de\u00a0barrocas articula\u00e7\u00f5es de quem lhes escreve e do diplomata Everton Lucero. \u00c9 formulado no jarg\u00e3o diplom\u00e1tico que deu par ser negociado com o G-70 + China, EUA e UE que diz: &#8220;Reconhece\u00a0o\u00a0valor\u00a0social,\u00a0econ\u00f4mico\u00a0e ambiental\u00a0das a\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o volunt\u00e1rias\u00a0e seus co-benef\u00edcios para a adapta\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade e o desenvolvimento sustent\u00e1vel;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">O &#8220;x&#8221; da quest\u00e3o est\u00e1 no reconhecimento do\u00a0valor\u00a0(&#8230;) econ\u00f4mico (&#8230;) das a\u00e7\u00f5es de   mitiga\u00e7\u00e3o\u00a0volunt\u00e1rias,\u00a0sin\u00f4nimo de\u00a0menos-carbono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A express\u00e3o &#8220;volunt\u00e1rias&#8221;\u00a0ficou propositadamente amb\u00edgua, podem ser a\u00e7\u00f5es para al\u00e9m da NDC. Mas as NDC s\u00e3o, elas pr\u00f3prias, um compromisso volunt\u00e1rio por tanto, numa interpreta\u00e7\u00e3o, poderiam ser aplicadas tamb\u00e9m a elas.<br><br>Pessoalmente, penso que seria mais apropriado e compat\u00edvel com a coexist\u00eancia de um mercado de carbono, elas serem\u00a0 remuneradas &#8220;over the cap&#8221;, &#8220;acima&#8221; das NDC no esfor\u00e7o adicional rumo \u00e0 neutralidade de carbono.\u00a0<br><br>De qualquer forma ficou estabelecido que\u00a0\u00a0reduzir emiss\u00f5es ou retirar carbono da atmosfera passava a ter, desde Paris, \u00a0valor econ\u00f4mico, intr\u00ednseco. O menos carbono vale dinheiro!\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um tipo de valor diferente &nbsp;do proveniente &nbsp;dos \u201ccr\u00e9ditos de carbono\u201d nos quais&nbsp; compra-se uma redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de outrem para atender \u00e0 uma meta, que n\u00e3o se logrou. Isso \u00e9 algo que, novamente, n\u00e3o conseguiu ser regulamentado, em Madrid,&nbsp; por causa do impasse nas negocia\u00e7\u00f5es do Artigo 6\u00ba. Em boa parte gra\u00e7as ao Brasil&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pessoalmente, n\u00e3o acredito tanto no MDS, suced\u00e2neo do MDL. Num tempo em que todos os pa\u00edses t\u00eam suas NDCs, &#8211;e elas s\u00e3o t\u00e3o d\u00edspares&#8211;&nbsp; se possa&nbsp;mobilizar recursos muito significativos. Mas pode eventualmente ser \u00fatil&nbsp;under the cap.&nbsp; Acredito mais em mercados regionais\/internacionais e volunt\u00e1rios mas n\u00e3o vou aborda-los aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Quero voltar \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, que ser\u00e1 a precifica\u00e7\u00e3o positiva do carbono.&nbsp; Ela j\u00e1 tem manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, ou outros nomes: a remunera\u00e7\u00e3o que a Noruega dava ao Fundo Amaz\u00f4nia pela redu\u00e7\u00e3o do desmatamento (seus km2 s\u00e3o facilmente convers\u00edveis em toneladas de emiss\u00f5es de CO2 reduzidas) era pura precifica\u00e7\u00e3o positiva com outro nome.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando me refiro ao &#8220;novo ouro&#8221; n\u00e3o uso uma met\u00e1fora descabida, nem delirante, &nbsp;pois se trata, para a humanidade, de um momento an\u00e1logo ao que ocorreu h\u00e1&nbsp;mil\u00eanios quando aconteceu a \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d do ouro como um valor&nbsp; dado na abstra\u00e7\u00e3o &nbsp;de troca, baseada na confian\u00e7a, &nbsp;e aplicada a qualquer bem assim transformado em mercadoria, numa economia at\u00e9 ent\u00e3o dominada pelo escambo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 discutimos diversas maneiras de potencializar essa \u201cprecifica\u00e7\u00e3o positiva\u201d do menos-carbono. \u00c9 o oposto sim\u00e9trico daquela precifica\u00e7\u00e3o de carbono &nbsp;da qual tanto se fala, discute, estuda e, eventualmente, &nbsp;tenta aplicar. Essa \u00e9 a precifica\u00e7\u00e3o &nbsp; real, ou \u201cnegativa\u201d do carbono que vem obtendo um sucesso ate agora &nbsp;limitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Serve para taxar o carbono, servir de&nbsp;referencia para seus&nbsp;mercados e de &#8220;shadow price&#8221; (um pre\u00e7o &#8220;sombra&#8221;, simulado) &nbsp;para as&nbsp;empresas se prepararem para&nbsp; quando essa precifica\u00e7\u00e3o &#8220;negativa&#8221; venha a ter for\u00e7a de Lei, taxado assim as \u00f3bvias externalidades negativas das emiss\u00f5es e suas consequ\u00eancias delet\u00e9rias de efeito local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ambas formas de precifica\u00e7\u00e3o do carbono a &#8220;real, negativa&#8221; e a &#8220;positiva&#8221; valem. &nbsp; N\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rias, &nbsp;partem da uma mesma considera\u00e7\u00e3o: apenas uma \u00e9 o &#8220;porrete&#8221; e a outra a &#8220;cenoura&#8221;. As duas s\u00e3o necess\u00e1rias mas os luminares do pensamento&nbsp;econ\u00f4mico clim\u00e1tico preferem ignorar a &#8220;cenoura&#8221; por&nbsp;conta e risco dos governantes e dirigentes&nbsp; que&nbsp; assessoram e a cujas agruras&nbsp; assistem nas ruas,&nbsp;depois.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200b<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A Iniciativa 108<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A precifica\u00e7\u00e3o positiva, como vimos, &nbsp;foi instaurada no Par\u00e1grafo 108 da Revis\u00e3o de Paris (o pre\u00e2mbulo do Acordo) por proposta do Brasil numa articula\u00e7\u00e3o feita por mim e pelo Everton Lucero. O princ\u00edpio est\u00e1 l\u00e1: o reconhecimento por 196 governos do valor social,&nbsp;econ\u00f4mico&nbsp;e ambiental das a\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o. Mas sua instrumentaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o avan\u00e7ou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o conseguimos &#8212; ainda espero &#8212;&nbsp;sensibilizar governos, bancos centrais, bancos de desenvolvimento. O Banco Central Europeu, na sua fase de&nbsp;quatitative easing&nbsp;imprimiu liquid\u00eas a rodo para comprar todo tipo de papeis&nbsp;mandrakes&nbsp;mas, obtusamente, &nbsp;n\u00e3o pensou em lastrear certificados de redu\u00e7\u00e3o\/sequestro de emiss\u00f5es, em instituir uma moeda do clima para a\u00e7\u00f5es de descarboniza\u00e7\u00e3o. Ignorou as chances de precifica\u00e7\u00e3o positiva do carbono que poderiam ter dinamizado mais a economia e gerado muito&nbsp; empregos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Os gr\u00e3o-economistas clim\u00e1ticos acharam a ideia \u201cinteressante\u201d mas como n\u00e3o foram contratados para desenvolve-la preferem ficar brincando com a ilus\u00e3o do Banco Mundial de que a precifica\u00e7\u00e3o real do carbono para efeito de taxa\u00e7\u00e3o, mercado ou&nbsp;shadow pricing&nbsp;avan\u00e7a avassaladoramente &nbsp;no planeta, pelo menos, nos seus&nbsp;Power Points.&nbsp;<br><br>Isso simplesmente n\u00e3o parece estar acontecendo, no mundo real, pelo menos em escala capaz de fazer frente a crise clim\u00e1tica e prevenir a cat\u00e1strofe.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucos no&nbsp;establishment&nbsp;parecem perceber o potencial revolucion\u00e1rio disso e aqueles que percebem, por diversas raz\u00f5es, &nbsp;temem botar a cara a tapa, Nossa Iniciativa 108, &nbsp;com pensadores como os professores Jean Charles Hourcade, Micheal Aglietta, Dipak Dasgupta, Seyni Nafo e outros decidiu, pelo momento, se fixar num mecanismos de precifica\u00e7\u00e3o positiva, mais imediato e menos ousado que \u00e9 um Fundo Garantidor para projetos descarbonizantes. O establishment vem reagindo melhor a isso que denomina de&nbsp;blended finance.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2020, d\u00e1&nbsp;vontade&nbsp;&nbsp;de chutar o pau da barraca.&nbsp;&nbsp;De come\u00e7ar a imaginar que a precifica\u00e7\u00e3o positiva &nbsp;poder\u00e1 &nbsp;se desencadear &nbsp;totalmente fora das esferas oficiais e que a&nbsp;&nbsp;descarboniza\u00e7\u00e3o ser\u00e1 alavancada por uma critptomoeda lastreada no menos-carbono. Nesse caso depender\u00e1 mais de Greta, Madonas, especialista em&nbsp;block chain, hackers&nbsp;e de um gigantesco movimento de revolu\u00e7\u00e3o cultural nas ruas e na internet.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 existe um mont\u00e3o de criptomoedas. A mais famosa, totalmente artificial \u2013e daninha ambientalmente&#8211;&nbsp;&nbsp;o&nbsp;Bitcoin, &nbsp;continua &nbsp;apesar de Bancos Centrais terem prognosticado sua morte tantas vezes. Depende de uma \u201cminera\u00e7\u00e3o\u201d inform\u00e1tica de&nbsp;block chain, complicad\u00edssima e que acarreta &nbsp;imenso &nbsp;gasto de energia, sobre tudo na China onde ela provem principalmente do carv\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A moeda do clima seria bem mais f\u00e1cil!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma criptomoeda (com voca\u00e7\u00e3o de moeda) lastreada simplesmente no menos-cabono para o qual j\u00e1 abundam mecanismos t\u00e9cnicos de certifica\u00e7\u00e3o, no pr\u00f3prio sistema da ONU, herdados do MDL (CDM em ingl\u00eas&nbsp;o antigo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo)&nbsp;\u00e9 uma arma cujo potencial n\u00e3o pode mais ser desprezado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Futuramente, poder\u00e1 inclusive, servir para rever o papel geopol\u00edtico desproporcional, absurdo&nbsp;&nbsp;do d\u00f3lar.&nbsp;&nbsp;Lord Keynes tentara evita-lo, inutilmente, <a href=\"https:\/\/pinzon17.com.br\/cbc\/site\/um-bretton-woods-de-baixo-carbono-na-era-da-financeirizacao\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/pinzon17.com.br\/cbc\/site\/um-bretton-woods-de-baixo-carbono-na-era-da-financeirizacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">em Bretton Woods<\/a>, em 1944, ao propor o&nbsp;Banco,&nbsp;uma moeda&nbsp;internacional&nbsp;&nbsp;lastreado pelo ouro. A&nbsp;ideia foi&nbsp;fulminada pelos americanos. Um moeda internacional lastreada pelo menos carbono poderia talvez realizar seu sonho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mundo s\u00f3 tem a perder sua impot\u00eancia diante da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Hackers, pop-stars e formadores de opini\u00e3o de todo o mundo uni-vos: viva a criptomoeda do menos-carbono!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A possibilidade de\u00a0\u00a0manter as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas num limite aqu\u00e9m do catastr\u00f3fico, no tempo de vida das gera\u00e7\u00f5es de nossos filhos e netos,\u00a0\u00a0deteriora-se a olhos vistos. A Confer\u00eancia de Madrid apenas confirmou a tend\u00eancia.\u00a0\u00a0 Houve aquele ef\u00eamero momento otimista da Confer\u00eancia de Paris que agora retrocedeu. 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